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Esse é um relato verídico, mas para preservar a integridade de nossas fontes iremos usar nomes fictícios. Quando o trabalho se torna escravo? Assessor parlamentar conta sobre humilhações e horas abusivas de trabalho.

Quando o trabalho ultrapassa a linha da escravidão e ameaça a vida e o psicológico do
funcionário, algo está errado. Foto: Pixabay.
Todo estudante de comunicação, quando está se formando sonha em trabalhos grandes e que lhe dê destaque na sociedade. Alguns acabam se enveredando para caminhos mais discretos atuando como assessores de imprensa e assim não foi diferente com V.P., de 33 anos.

Formou-se em Comunicação Social em 2013 e daí começou a trabalhar em empresas, tais como jornais da sua cidade Serra e também na capital Vitória, do Espírito Santo, como Jornalista e sempre teve a premissa de seguir o Código de Ética da Profissão à risca. “Quando me formei jurei para mim mesmo que, nunca iria me beneficiar do meu trabalho, pois as pessoas que nos veem desempenhando um papel seja em frente às câmeras ou pelas linhas dos jornais tendem a ter uma admiração muito grande por nós e eu não queria ser artista, meu papel era de formador de opiniões e minha missão era mudar vidas com aquilo que escrevia”, relata V.P.

Passado algum tempo de formação e já atuando na área, V.P. acabou sendo pego de surpresa com a habilidade em Assessoria de Imprensa. Seu primeiro cliente foi Pedro Moro, coach e programador neurolinguístico. Foi assim que se descobriu desempenhando esse papel e desde então acabou pegando gosto pela área. “Sempre fui menino de redação, escrevendo para jornais e atuando em rádio, inclusive atuei em uma rádio que foi uma das minhas grandes escolas. E certo dia fui procurado por esse coach, Pedro Moro, até hoje não sei como ele achou, mas comecei a fazer alguns trabalhos para ele de assessoria e quando dei por mim, já estava com cliente entrando em outras mídias, como Jornal A Gazeta, A tribuna, programas de televisão, rádio, revistas e sites. Foi uma surpresa pra mim, já que não me imaginava fazendo isso”, relembra V.P.

Foram clientes e clientes que passaram na vida de V.P e a cada dia ele se dedicava mais e mais a essa experiência e aliava isso ao trabalho na redação da Rádio. Até que foi convidado para executar um novo trabalho. O de assessoria política e campanha eleitoral. “Uma grande amiga e parceira em outros trabalhos me contatou e me chamou para esse serviço, onde iria assessorar um candidato a vereador da Serra, que estava iniciando a campanha eleitoral. Eu relutei um pouco, por dois motivos: primeiro, eu não queria me envolver com política e segundo eu não fazia ideia do que eu iria fazer. Mas, acabei aceitando o desafio e após o tempo de campanha, me peguei surpreso novamente. Com votos que seriam suficientes para fazer dois vereadores conseguimos eleger o político e daí começou a nova jornada. Já estava fora das redações por ter me dedicado a campanha e após essa vitória fui convidado para ocupar um cargo no gabinete dele, na Câmara da Serra. Algo que pareceu bom, só pareceu”, relata.

Pagamento em dia, ticket alimentação e o funcionário só trabalha de segunda a sexta-feira, nove horas por dia e tem uma hora de almoço. Sábados, domingos e feriados fica em casa curtindo a família e amigos ou até uma praia e viagens. Mas, a realidade de quem trabalha com esse tipo de assessoria é outra. 
Eu chegava a trabalhar quase 12 horas por dia e 18 à 20 horas em dias que eu desempenhava atividades como Mestre de Cerimônia em Sessões Solenes. Isso em dias normais! Fora às horas em que eu tinha que ficar em casa, monitorando redes sociais, fazendo textos e outras coisas para publicar em Facebook, Instagram e outras mídias, sendo que, o então eleito vereador é viciado nessas redes. Já me peguei fazendo esse tipo de coisa meia-noite à uma hora da manhã, nas casas de amigos durante recreações. Os sábados e domingos eram muito complicados, muitas vezes eu tinha que sair para eventos e outros afazeres, que poderiam ser desempenhados por outros assessores que não tinham a obrigação de bater ponto como eu durante a semana. O que acabava acumulando horas, que nunca eram pagas, além dos meus gastos com transporte e alimentação fora do ambiente de trabalho. Era algo que chegava ser exaustivo e chato, pois não era minha função, já que eu sou jornalista e não social media, era, além de trabalho escravo, também desvio de função. Fora que o salário pago não chegava nem ao teto que minha categoria tem como piso. Ou seja, eu quase estava pagando para trabalhar, relembra.

Você pode ser perguntar: então por que V.P. se submetia a isso? Ele diz, que nem mesmo ele sabia, já que o jovem jornalista poderia atuar onde quisesse e dar um basta naquela condição, que beirava a humilhação e desgaste físico, mental e moral. “Eu tinha um sonho, que era ter meu próprio meio de comunicação, jornal ou revista, não sabia bem, mas, queria viver de comunicação. Assim, abri um site e após algum tempo comecei a ver que eu estava tomando forma e o mercado começava a me enxergar como empresa de comunicação. Esse foi um dos motivos pelos quais eu era “massacrado” pelo vereador. Ele queria o tempo todo mídia e nunca se sentia satisfeito com o que eu tinha a oferecer. O abuso foi tanto que ele chegou a insinuar que eu usasse meu site para promoção exclusiva e contínua dele. O que eu jamais faria, já que eu sou apartidário, mesmo trabalhando para um político, todos poderiam de igual tamanho entrar no meu meio de comunicação como fontes ou anunciantes, o que quer que fosse para eu capitalizar recursos a fim de realizar meu outro sonho: o impresso do meu jornal”, conta.

Ele conta como que o apoio de colegas ajudava em dias de crise. “Lena Alves diversas vezes fazia orações por mim dentro do gabinete, quando eu chegava tendo crises de estresse e choro. Eram dias que eu simplesmente não tinha forças para desempenhar meu trabalho, que na verdade era o motivo dos ataques. Já passei horas chorando dentro daquela sala e com a vontade de simplesmente jogar tudo pro alto. Me convenceram de que eu tinha que buscar alívio das tensões de alguma forma. Daí veio o problema maior! Minha válvula de escape acabou se tornando as bebidas e vez por outra drogas. Cheguei a faltar por diversas vezes ao trabalho, pois estava bêbado ou de ressaca, após ter saído do gabinete na sexta-feira,m saído para beber e só parado no domingo de madrugada. Isso estava me destruindo e estava acabando com aquele V.P. que tinha garra e autoestima lá no alto. Daí resolvi mudar essa história antes que acabasse com minha vida profissional e também com a saúde.

A decisão de sair

V.P. como a maioria dos brasileiros iria ficar desempregado, mas, esse medo se tornou combustível para o jovem jornalista, que decidiu após outro ataque de estresse, onde ficou dois dias em coma alcoólico, jogar tudo pro alto e buscar tratamento e se lançar no mercado, não como empregado de alguém, mas, sim como dono de seu próprio destino. “Ainda é claro como a água, o dia que tive o ataque de estresse e acabei me juntando com alguns “amigos” e bebi mais do que eu podia e também caí novamente no uso de drogas. Simplesmente cheguei a um determinado momento em que apaguei. Eu dormi de uma sexta-feira até o domingo à noite. Quando acordei, me dei conta que minha vida estava tomando uma direção que só tendia a piorar, se não fosse feito nada. E foi aí que decidi dar um basta. Mandei um áudio para meu chefe dizendo que iria sair da equipe e tudo o que havia me acontecido àquele final de semana e que não era eu, que eu era melhor que aquilo e que não iria mais continuar e que precisava de ajuda, antes que fosse tarde. Isso aconteceu no dia 26 de julho de 2018 e minha saída da equipe foi na segunda-feira, dia 31 de julho. Eu iria ficar desempregado, mas isso não me assustava, pois eu tinha certeza que a partir daquele momento eu estaria livre para desempenhar meu trabalho e realizar meu sonho”.

E foi o que aconteceu. V.P. procurou ajuda psicológica e também alguns tratamentos e passou a se desenvolver e buscar cursos de aprimoramento e lançou seu jornal e começou a atuar em TV como apresentador de telejornal. “Parece que na verdade eu estava adiando aquilo que já era um fato. Eu não cabia mais naquele lugar e agora o mundo estava abrindo as portas pra mim. Consegui finalmente lançar meu jornal e agora estou trabalhando mais leve. Também, viajei para uma cidade à convite de um dono de TV a fim de levar meu conhecimento profissional e juntar as forças para desempenhar o papel como Diretor de Jornalismo da rede dele. Eu não era um desempregado eu era e sou um empreendedor no mercado de comunicação e estou me recuperando de tudo o que passou e feliz!”, relata.

Chegar a reconhecer que o emprego, por mais rentável e seguro é escravização é um processo que leva certo tempo. E daí surge a grande questão: Existe hora certa para pedir demissão? Isso é o que explica a coach de carreira Gilian Follador. “Gestão sem planejamento, falta de reconhecimento, falta de relacionamento interpessoal saudável entre líder, liderados e pares, cultura organizacional baseada no medo, falta de confiança nos líderes, estagnação profissional e insatisfação com o salário são algumas das razões que levam, eu diria até que ‘forçam’, um funcionário a tomar a decisão de pedir demissão”, explica.

Se você está passando por alguma situação desafiadora no seu ambiente de trabalho, ela ressalta que pedir demissão não pode ser visto como a primeira opção. Primeiro, é importante refletir com calma e analisar o que de fato está atrapalhando o bom desempenho profissional. “Acredito que se somos parte de um problema, também somos parte da solução. Então, o que pode ser feito a partir de hoje para ajudar na solução desse problema?”, questiona.

E foi isso que V.P. fez ao se ver na linha tênue entre a loucura e a humilhação resolveu abandonar tudo e hoje consegue viver em paz consigo mesmo e o melhor: tem o merecido reconhecimento do mercado ao qual se propôs. 

Eu agradeço toda a experiência que tive. Trabalhar em uma campanha e chegar ao final sabendo que eu tive participação direta na vitória de um candidato foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Porém, ego e vaidade estão muito mais entrelaçados nesse tipo de pessoa do que se pode imaginar e isso foi algo que eu nunca soube lidar. E antes que eu enlouquecesse ou sucumbisse ao vício em bebidas e drogas, eu preferi abandonar tudo e me dedicar a minha carreira e meu sonho. Reconhecer que eu poderia me tornar alcoólatra e viciado é algo que é difícil, mas reconhecer e buscar ajuda são fundamentais para uma mudança de vida. E eu não quero morrer, pois ainda tenho um legado para deixar, finaliza.

O caso aqui relatado é verídico, o assessor atuava na Câmara da Serra e foi desligado em julho de 2018.

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