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O artista e ativista chinês Ai Weiwei traz para o Brasil sua maior exposição individual, que abriu neste sábado suas portas ao público em São Paulo e mostra pela primeira vez trabalhos realizados com artesãos brasileiros para abrir um novo capítulo da sua obra: a influência latino-americana.
A mostra "Raiz", que estará aberta ao público até 20 de janeiro de 2019 no Parque Ibirapuera, pretende "revelar as raízes perdidas e evidências de culturas ameaçadas".
Com trabalhos em cerâmica, madeira, papel e ferro, o artista chinês narra através das suas obras passagens trágicas da sua biografia, como sua detenção em 2011 após ser acusado de evasão fiscal.
Reconhecido mundialmente por sua luta contra a repressão e a violação dos direitos humanos, e seu interesse por assuntos políticos e sociais como a crise mundial dos refugiados, Weiwei usa elementos tradicionais chineses, como a pintura em porcelana, para representar estas questões.
"Weiwei é um destes raros artistas que têm um reconhecimento transnacional e ao mesmo tempo extrapola a arte e entra na cultura pop, onde as pessoas se relacionam por seu ativismo e sua ação nas redes sociais", ressaltou à Agência Efe Marcello Dantas, curador da exposição.
Dantas está em contato com o artista chinês desde 2010, quando surgiu a ideia da mostra, que classifica como um "olhar sobre bandeiras latentes".
"Weiwei é um artista de conteúdo político forte e por isso não tem como não ser incluído na discussão política atual do Brasil, já que fala sobre liberdade de expressão, refugiados, direitos humanos", disse Dantas.
Uma balsa inflável com bonecos que representam refugiados é uma das peças mais impactantes da exposição. Leva o nome de "Odisseia", em referência ao desafio que as travessias pelo mar e a busca de abrigo representam.
Câmeras de vigilância, algemas e barras de ferro também lembram a luta de Weiwei contra o Estado chinês após o terremoto de Sichuan, em 2008, e suas denúncias exigindo transparência por parte do governo sobre as mortes de estudantes.
Para representar essa tragédia, Weiwei montou uma instalação de 164 toneladas de ferro retirado dos escombros do terremoto, após investigar e descobrir que 5.000 crianças morreram no acidente.
A obra "Straight" é uma das mais imponentes entre o total de 70 e foi parcialmente exibida ao público pela primeira vez na Bienal de Arte de Veneza, em 2013, mas só agora poderá ser contemplada na sua plenitude.
"Semente de girassol" é outra criação qualificada por Dantas como "imperdível". Tem 357 metros quadrados e consiste em milhões de sementes confeccionadas em porcelana e pintadas à mão por 1.600 artesãs durante dois anos para representar sua preocupação com os direitos humanos.
O artista também disse ser amante do Brasil e neste sentido, se reuniu com artesãos da cidade de Juazeiro do Norte, no estado do Ceará, para produzir 24 peças inéditas.
Entre elas há uma série de 200 esculturas, resultado de uma combinação da personalidade artística de Weiwei com os "ex-votos", artefato religioso típico do nordeste brasileiro, esculpido em madeira e oferecido em agradecimento ao santo de devoção por um desejo realizado.
As miniaturas subvertem o sentido religioso dos ex-votos e chamam a atenção por replicar, por exemplo, o dedo do meio de Weiwei fazendo um gesto obsceno, que é, além disso, uma marca característica do artista asiático.
"Terra de Raízes" é uma série composta por 17 árvores e troncos e foi produzida no Brasil para Weiwei entender melhor a cultura do país.
Ao redor fica um conjunto de peças de couro denominado "Marcas" com citações sobre o poder e a raça, em alusão à prática de marcar o gado e os antigos escravos no Brasil.
A exposição teve um custo de produção de R$ 10 milhões.
Isadora Camargo.

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